sábado, 24 de setembro de 2011

NAUFRÁGIO DA FRAGATA MEDUSA
















NAUFRÁGIO DA FRAGATA MEDUSA
(Perséfone Diana)


Sangue rubro nas veias é vida...
Espírito fora do corpo é morte.
A voz tem tom de vida, ecoa!
A mudez é o silêncio da morte.
Os cinco sentidos é vida...
A ausência deles é morte.

Nas mãos humanas o erro ou acerto
despedida da Vida ou da morte.
Ao longe a linha horizontal 
obscura e oculta o céu e o mar...
A linha da vida e da morte.

A embarcação flutua na água...
A fragata Medusa.
Viagem com sonhos de partida 
Interrompidos
entre a frança e o Senegal.
Aurora ensolarada
almas enegrecidas pelo padecimento.
Todos na mesma jangada.
Num naufrágio.

No horizonte a incógnita
Paz, guerra, o estrangeiro...
Nos olhos foscos o brilho do medo.
Os lábios cerram, abrem os portões do desespero.
Apagou o riso que festejava a vida...
A calmaria, o silêncio dormindo no peito que grita...
A brisa, o vento sopra a canção fúnebre.
Inquietante...
Limite sombrio entre a vida e a morte.

Luta pela sobrevivência...
Delimita o fraco e o forte.
Pouco a pouco o céu macula-se
com pequenos borrões.
Agitação no mar
mortificação no lar...

A sepultura não é de cimento...
Quando falta à terra a água  guarda os restos mortais...
No mar, as ondas vêm e vão...
Carregam os corpos.
A escuridão pinta o céu...
Padecimento para quem fica e quem parte.
Enquanto o mundo inerte está em construção;
Os homens encontram destruição no gigante mar.
Memórias em memorial antecipado...
Limite entre o ser racional.

A vida esvaindo em lamentos...
Gemidos, prantos, gritos por socorro.
Quem ouvirá o clamor das almas atormentadas?
No fiasco da fala um segundo é a dor morrendo na eternidade.
No alto mar os olhos cegam para a luz.
A morte é onipotente nas águas que encontram a onisciência.
A sentença é consumada...
A lei da sobrevivência demarca quem vence.

Se alguém imaginar verá a fragata Medusa
restos em cima do mar
a revelia deixados no abandono.
Entre todos os mais diversos pensamentos... 
Batalha entre o bem e o mal.
Num corpo onde mora a fera humana na luta se desumaniza.

Sem regras e sacramentos...
Decide quem fica e quem vai.
Ausência do ser racional.
Nos destroços o realismo e o simbolismo...
Da alma desnudada da força de cada um.
Abandono do medo é coragem em busca de vida...
Desapego da fé quando a luta finda afunda e boia...

Alguém abana um tecido
é pedido de socorro
Há esperança...
Os doentes e feridos deitados...
Recebem a mão dos fortes.
Outros caídos sem ver salvação
erguem o braço em pedido de súplica.
Olhares perdidos deparam com corpos sem vidas...

Na mesma embarcação.
Mãos fracas empurram o outro o lançando ao mar
buscam pela salvação.
Fome, medo, um mundo de água a vista alcança.
Canibalismo é sobrevivência.
Tabu desfeito no inferno de Dante, num canto.

A alma faminta devora a carne de corpos,
dos mortos dissecados pelo sol.
A morte do outro simboliza vida de quem luta.
A energia inteligente que há na vida...
Duela contra o desligamento físico da morte.

Treze crepúsculos, treze auroras renascem...
Na partida cento e quarenta sete vidas.
Salvação num navio mercante...
Argus resgata quinze sobreviventes.
A alma não descansa dorme sem paz.
no naufrágio na confusão mental.
Ao se verem morrendo centenas de vezes...
Com os olhos abertos num milésimo de tempo que parte.

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